Guardar segredos no relacionamento não é o mesmo que privacidade

A equipe do CoupleStars Crescimento pessoal 3 min de leitura
Uma mulher parada perto de uma janela com uma xícara de café, o tipo de momento silencioso em que se decide guardar segredos no relacionamento
Photo by B S on Unsplash

No celular dela existe uma nota chamada Compras, e a maior parte é mesmo lista de compras: ovos, o remédio do cachorro, um presente para comprar antes de sexta-feira. Três linhas no final falam sobre o diagnóstico da irmã dela, algo que ela ainda não contou ao namorado, não porque esteja escondendo, mas porque ainda não terminou de decidir o que sente a respeito. A nota está protegida por senha. Ele nunca pediu o código, e guardar segredos no relacionamento nunca surgiu entre os dois, nem como frase, nem como preocupação.

Esse tipo de omissão discreta costuma ser colocado no mesmo saco de algo bem menos inocente: um segundo cartão de crédito, um antigo flerte mantido vivo num grupo de mensagens, um hábito escondido porque os dois sabem o preço de ser descoberto. Os dois casos são chamados de segredo. Os dois envolvem informação que um parceiro tem e o outro não.

A estudiosa da comunicação Sandra Petronio passou décadas pesquisando como as pessoas lidam com isso, e sua abordagem ajuda justamente porque não parte do conteúdo. As pessoas se tratam como donas de suas próprias informações privadas, argumentou ela, e estabelecem regras sobre quem tem acesso a elas e quando. Uma regra de limite não é uma mentira. É uma decisão sobre o momento certo, às vezes sobre se a informação já terminou de se formar.

Por que guardar segredos no relacionamento nem sempre é desonestidade

Um estudo com universitários e adultos empregados, conduzido pela pesquisadora Alisa Bedrov, perguntou às pessoas o que elas escondiam de parceiros, pais e amigos, e por quê. O palpite óbvio seria medo de julgamento. Não exatamente. Quem avaliava o relacionamento como de alta qualidade não estava especialmente preocupado em ser julgado. O que pesava era a ideia de causar dor à outra pessoa, e algumas descreveram o segredo como algo que protegia a proximidade entre os dois. Vista assim, a omissão pode parecer uma forma de cuidado, ao menos por um tempo.

O que a privacidade realmente protege

Privacidade, nesse sentido, tem a ver com propriedade: um diário da faculdade, uma amizade que o parceiro nunca conheceu, uma hora sozinho no carro antes de encarar a casa. Nada disso é uma ameaça. É mais parecido com o que mantém o senso de identidade de uma pessoa intacto dentro de uma vida compartilhada. Um relacionamento que exige acesso a tudo isso não é mais honesto. É apenas menor do que as duas pessoas que o formam.

O que costuma transformar privacidade em segredo

Uma pesquisa com adultos casados descobriu que quatro em cada dez acreditavam que o parceiro escondia algo deles, o que revela tanto sobre o quanto de segredo as pessoas suspeitam quanto sobre o quanto realmente existe. O que costuma fazer um limite virar segredo é a reação antecipada: esconder algo para evitar uma discussão, para não parecer pior do que se é, ou para impedir que uma decisão se torne conjunta antes da hora. Esse último motivo azeda mais rápido. Uma decisão tomada sozinha e escondida de propósito é um animal bem diferente de um diagnóstico que ninguém ainda processou, e a dúvida que isso planta pode se calcificar em algo próximo do ciúme explícito.

Um casal sentado frente a frente no sofá, no meio de uma conversa
Foto de lucas mendes no Unsplash

Por que a quantidade importa mais do que o conteúdo

A mesma pesquisadora também acompanhou universitários por dez dias, registrando as interações deles antes mesmo de mencionar segredos, para só depois perguntar o que tinha ficado sem ser dito. Um único segredo quase não mudava nada. O que previa estresse e uma sensação de distância durante uma conversa era o número de coisas guardadas e o quanto elas importavam. Quem guardava mais segredos de alguém tendia a ver essa pessoa com menos frequência, um padrão que pode, silenciosamente, se transformar em afastamento do parceiro bem antes de qualquer um dos dois perceber. Curiosamente, sentir pressão para finalmente contar algo a alguém estava associado a se sentir mais próximo dessa pessoa.

Onde a linha fica turva, até para quem a guarda

O problema de definir segredo pela intenção é que a intenção nem sempre está clara para quem a tem. Às vezes nem é honesta. Alguém que chama um caso extraconjugal de “privado”, porque admitir que é um segredo significaria admitir o que ele realmente é, costuma estar se protegendo da frase mais difícil de dizer. A mesma autoproteção que torna algumas omissões razoáveis pode, com a mesma facilidade, convencer alguém de que existe um limite onde na verdade só há evitação. Não existe um teste claro para diferenciar as duas coisas de dentro da própria cabeça, o que provavelmente explica por que tanto ressentimento por mágoas antigas começa com alguém insistindo, sinceramente, que não estava escondendo nada.

A nota continua lá. Ainda protegida por senha, ainda sem ser mencionada. Se conta como segredo provavelmente depende do que acontece depois: se as três linhas sobre a irmã continuam sendo só três linhas, ou se viram uma decisão que ela toma sozinha, na esperança de que ele nunca pergunte. Por enquanto é um pensamento inacabado ao lado de uma lista de compras, esperando que ela mesma chegue lá antes de qualquer outra pessoa.

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